A Historicidade de Jesus Cristo por fontes extra-bíblicas

Josephus.jpgFlavio Josefo (37 d.C. – 100 d.C.), foi um historiador e apologista judaico-romano, descendente de uma linhagem de importantes sacerdotes e reis, que registrou in loco a destruição de Jerusalém, em 70 d.C., pelas tropas do imperador romano Vespasiano, comandadas por seu filho Tito, futuro imperador. Em seu livro “Antiguidades Judaicas”, escrito no século I, Josefo cita Jesus:

“Nesse mesmo tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considera-lo simplesmente como um homem, tanto suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Ele era o Cristo. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas o tinham predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiraram seu nome” – (JOSEFO, Flávio, História dos Hebreus – CPAD, 2000, pp.418)
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josephusCelso (em grego: Κέλσος) foi um filósofo grego do século II, lembrado como opositor do Cristianismo. Sua obra A Verdadeira Palavra foi contestada por Orígenes, numa polêmica famosa, em sua obra Contra Celsum. O filósofo pagão acusa Maria e Jesus:

“Ele [Celso] o [Jesus] acusa de ‘inventar seu nascimento de uma virgem’ e o censura como sendo ‘nascido em uma determinada vila judaica, de uma mulher pobre de seu país, que ganhava a vida como costureira, e que foi expulsa de casa por seu marido, um carpinteiro por profissão, por que ela fora condenada por adultério; após ter sido expulsa por seu marido, e vagueando por uns tempos, ela desgraçadamente deu a luz a Jesus, um filho ilegítimo, que fora empregado como serviçal no Egito em função de sua pobreza, e tendo aí adquirido alguns poderes mágicos, nos quais os egípcios tanto se orgulham, e [então] retornou ao seu país, sendo exaltado por conta deles, e por meio deles se proclamou como um deus” (Origens, Contra Celsum, 1.28; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.408)

Sobre Jesus e os discípulos:

“Jesus reuniu próximo a si mesmo dez ou onze pessoas de caráter notório, o mais doentio dos cobradores de impostos, marinheiros, e com eles fugiu de lugar em lugar, e obteve sua sobrevivência de um modo vergonhoso e inoportuno” (Origens, Contra Celsum, 1.62; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.423)

Em outra citação, ele faz outras declarações sobre Cristo e seus discípulos, que também confirmam detalhes interessantes apresentados pelas escrituras, observe:

“[Ele foi] abandonado e entregue por esses mesmo com quem tinha se associado, que o tinham como professor, e que acreditavam que ele era o salvador, o filho do Altíssimo Deus (…) Esses com quem se associou enquanto estava vivo, que ouviram sua voz, que apreciaram suas instruções como seus professor, ao o verem sujeito a punição e morte, nem mesmo morreram por ele (…) mas negaram que foram seus discípulos” (Origens, Contra Celsum, 1.62; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 4, pp.423)
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tacitoCornélio Tácito (55 d.C. – 120 d.C.), foi um historiador, orador e político romano. É considerado um dos maiores historiadores da Antiguidade. Robert E. Van Voorst o considera como o maior historiador Romano. Tácito fala de Jesus e sua morte:

“Mas nem todo o socorro que um pessoa poderia ter prestado, nem todas as recompensas que um príncipe poderia ter dado, nem todos os sacrifícios que puderam ser feitos aos deuses, permitiram que Nero se visse livre da infâmia da suspeita de ter ordenado o grande incêndio, o incêndio de Roma. De modo que, para acabar com os rumores, acusou falsamente as pessoas comumente chamadas de cristãs, que eram odiadas por suas atrocidades, e as puniu com as mais terríveis torturas. Christus, o que deu origem ao nome cristão, foi condenado à extrema punição [i.e crucificação] por Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério; mas, reprimida por algum tempo, a superstição perniciosa irrompeu novamente, não apenas em toda a Judéia, onde o problema teve início, mas também em toda a cidade de Roma” – (TACITUS, Cornelius, Annales ab excesso div August. Charles Dennis Fisher, Clarendon Press, Oxford, 1906)
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josephusTalo é normalmente reconhecido como um antigo historicista samaritano que escreveu em grego koinê, possivelmente entre 50 e 55dC. Sabemos isso em função da menção de Julio Africano (Fragments, XII), Lactantius (Divine Institutes, XIII), Teófilo (To Autolycous, III, XXIX), Tertuliano (Apology, X), Justino Mártir (Horatory to address to the greeks, IX; todos alistados em: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers) e Flávio Josefo (JOSEFO, Flávio, História dos Hebreus – CPAD, 2000, pp.424).

Talo escreveu sobre a história do mundo mediterrâneo, muito embora nenhum dos seus escritos realmente tenha sobrevivido, ou seja, tudo o que sabemos sobre ele e sua obra provêm de outros escritores. Um desses autores que o menciona é Júlio Africano quando menciona a escuridão que cobriu a terra durante a crucificação de Cristo. Segundo Africano, Talo teria registrado esse fato como um evento cósmico, observe:

“Talo, no terceiro dos seus livros que escreveu sobre a história, explica essa escuridão como um eclipse do sol – o que me parece ilógico” – (MACDOWELL, Josh, Evidências que exigem um veredito, Cadeia, 1992, pp.107)

É interessante a proposição desse diálogo de Júlio Africano com Talo, afinal parece que Talo refuta o que Júlio acredita piamente. É fato que a defesa de Júlio não parece a mais adequada, até porque, hoje poucos achariam a proposta de um eclipse solar no período da morte de Cristo algo tão ilógico, como Júlio acredita. Entretanto, parece interessante que ainda que um fenômeno natural tenha sido atribuído como a causa dessa escuridão mencionada por Marcos e Lucas nos evangelhos canônicos, um dos fatos bem intrigantes da história de Cristo parece ter sido aludida até mesmo por aqueles que se recusavam a acreditar.

Yamauchi também nos lembra de uma citação interessante feita por Paul Maier sobre esse período de escuridão, em uma nota de rodapé do seu livro sobre Pôncio Pilatos (1968):

“Esse fenômeno, evidentemente, foi visível em Roma, Atenas e outras cidades do Mediterrâneo. Segundo Tertuliano foi um evento cósmico ou mundial. Flegão, um outro grego da Cária, escreveu uma cronologia pouco depois de 137 dC em que narra como no quarto ano das Olimpíadas de 202 (ou sejam 33dC), houve um grande eclipse solar, e que anoitecei na sexta hora do dia, de tal forma que até as estrelas apareceram no céu. Houve um grande terremoto na Bitínia, e muitas coisas saíram fora de lugar em Nicéia” – (MAIER, Paul, Pontius Pilate, p.366; IN: STROBEL, Lee, Em defesa de CristoVida, 1998, 111)

Com essas declarações de Talo, corroboradas pela opinião de Flegão, podemos auferir pelo menos três conclusões interessantes: (1) Na ocasião da morte de Cristo, houve um evento cósmico que foi conhecido em diferentes partes do mundo antigo de modo impressionantemente similar ao registro das escrituras; (2) O evangelho, ou pelo menos a história da crucificação de Cristo, já era conhecida na região do Mediterrâneo por volta do ano 50dC; (3) Aqueles que não acreditavam na história cristã já ofereciam diferentes explicações para as informações que tinham acesso.
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tacitoGaio Suetônio Tranquilo (69 d.C. – 141 d.C.), foi um historiador romano. Gary Habermas em seu livro The Historical Jesus, afirma que “pouco se sabe sobre ele, exceto que ele era o secretário chefe do Imperador Adriano (117-138 dC) e que tinha acesso aos registros imperiais” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.190). Um dado interessante sobre Suetônio é que ele desenvolveu uma amizade com Plínio o Jovem, que o descreve como um homem “quieto e estudioso, um homem dedicado a seus estudos”. Provavelmente em função desse relacionamento, que Suetônio recebeu favor de Trajano, de quem recebeu uma propriedade na Itália, e de Adriano, a quem serviu como secretário chefe.

Suetônio ocupa um lugar importante na história dos historiadores em função de suas biografias sobre doze Imperadores Romanos, de Júlio César a Domiciano, obra denominada De Vita Caesarum, escrito provavelmente durante o período de Adriano. Nessa mesma obra encontramos ao menos duas citações que nos interessam:

“Como os judeus, por instigação de Chrestus, estivessem constantemente provocando distúrbios, ele [Claudio] os expulsou de Roma” – (MACDOWELL, Josh, Evidências que exigem um veredito, Cadeia, 1992, pp.106)

Nessa citação encontramos a expressão “Chrestus”, o que MacDowell notifica como uma “outra forma de escrever Christus”, a versão latina do nome grego para Cristo, do mesmo modo que quase todos os comentaristas dessa expressão (cf. Habermas, Voorst, Geisler). Essa explicação é provavelmente proveniente do trabalho de Paulus Osorius em History against pagans 7.6, que apresenta uma variante textual para o mesmo trecho, substituindo o termo “Chrestus” por “Christus”. Entretanto, Voorst nos lembra que a leitura mais difícil, que nesse caso é aquela primeiramente apresentada, é provavelmente a verdadeira (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.30).

A autenticidade da citação é plausível, se realmente faz referência a Cristo, em função de dois detalhes importantes: (1) Dificilmente um cristão não colocaria Cristo em Roma por volta do ano 49; e (2) certamente não ousaria chama-lo de causador de distúrbios. Também é importante notar que a fonte de Suetônio não é um cristão, pois seria difícil pensar que um cristão soletrasse equivocadamente o nome do seu Salvador.

Entretanto, a pergunta é mais importante é: Suetônio realmente fala de Cristo? A pergunta nasce no reconhecimento que o nome usado por Suetônio também era conhecido como um nome greco-romano, além do fato que parece estranho que Cristo estivesse em Roma, por volta do ano 49 dC. Entretanto, a maioria dos historicistas parece concordar que nessa citação encontra-se uma referência a Cristo, como o próprio ateu Andrew Norman Wilson atestou: “Apenas o mais perversos dos acadêmicos duvidaria que Chrestus é Cristo” (WILSON, A.N, Paul: The mind of the Apostle, Norton, 1997, pp.104; IN: VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.32). Contudo, essa convicção de Wilson tem fundamento? Acreditamos que sim.

Primeiro, a sentença latina que de onde se traduz essa frase é significativa: “Iudaeos (Os judeus) impulsore (instigação) Chresto assidue (sobre) tumultuantis (causam distúrbios) Roma expulit (foram expulsos)”. O termo latino “impulsore” não deve ser traduzido como instigação, como vemos na tradução de MacDowell, mas como instigador, em função de sua relação apositiva com o substantivo Chresto com o qual concorda em gênero, número e caso. Portanto, a descrição não parece se referir a uma pessoa em si, mas a um título, que provavelmente Suetônio teria ouvido sem realmente conhecer Outro detalhe que merece nossa atenção é que a grafia aqui é muito parecida com a de Tácito, outro escritor latino.

Segundo, não era incomum que o nome tanto dos cristãos como de Cristo fosse escrito de maneira equivocada no segundo século. Quem nos informa isso é Tertuliano quando discursa sobre o ódio contra os cristãos, que chega a ser considerado um nome criminoso. Feita essa declaração, Tertuliano afiram:

“Mas, cristãos, até onde se refere ao significado do termo, é derivado do ungido. Isso mesmo, e mesmo quando é erroneamente pronunciado por você como ‘Chrestianus’ (por que você nem mesmo sabe exatamente o nome que odeia), ele vem cheio de ternura e bondade. Portanto, você odeia inocentes, com um nome sem culpa” (Tertuliano, Apology, Cap. III; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 3, pp.20)

Considerando que era historicamente comum entre os falantes de latim que se confundisse a pronúncia do nome dos cristãos, não é estranho pensar que o mesmo equívoco tenha sido cometido por Suetônio. Entretanto, Tertuliano não é o único a lembra esse fato, Lactantius também afirma:

“Mas, apesar de Seu nome, que o supremo Pai deu a Ele desde o princípio, não seja conhecido senão por Ele mesmo, ainda assim ele tem um nome entre os anjos e outro entre os homens, desde que é chamado de Jesus. Mas, Cristo não é um nome próprio, mas um título de Seu poder e domínio; pois assim é que os judeus estavam acostumados a chamar seus reis. Mas o significado desse nome deve ser declarado, em função do erro de ignorantes, que ao mudar uma letra, estão acostumados a chama-lo de Chrestus” (Lactantius, The Divine Institutes, Cap. VIII; IN: ROBERTS, Alexander, DONALDSON, James, Ante-Nicene Fathers, VOL 7, pp.106).

Portanto, fica evidente que o equívoco encontrado em Suetônio não era incomum e incomodava os cristãos primitivos.

Terceiro, embora o nome Chrestus pudesse ser comum na cultura greco-romana, não é encontrada entre os judeus em Roma naquele período, de acordo com o que se conhece das inscrições das catacumbas e outros documentos. Sobre isso, D. Noy atesta que essa ausência é baseada no fato de que tal nome era aplicado normalmente a escravos, o que teria causado certa repulsa nos judeus (NOY, D, Jewish Inscriptions of Western Europe, Vol.2 The City of Rome, Cambridge University Press, 1995).

Por fim, devemos considera ainda uma questão: Se Suetônio se refere a Cristo, não seria estranho pensar que Cristo estivesse pessoalmente em Roma, incitando uma rebelião contra Roma? A resposta a essa pergunta é na verdade não. Se a referência é realmente feita a Cristo, como um título e não como uma pessoa, não era necessário que Ele estivesse por lá, além do mais, essa declaração pode corroborar a declaração de Lucas de que “Claudio tinha mandado que todos os judeus saíssem de Roma” (At.18.2). Sobre isso, Geisler atesta:

“Suetônio ao escrever muitos anos mais tarde, não estava na posição de saber se os tumultos eram provocados por Chrestus ou pelos judeus contra seus seguidores. De qualquer forma, Cláudio ficou aborrecido o suficiente para expulsar todos os judeus da cidade (inclusive os companheiros de Paulo, Áquila e Priscila) em 49” (GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética – Vida 2002, pp.449).

Já a segunda declaração de Suetônio é menos controversa: “Nero infligiu castigo aos cristãos, um grupo de pessoas dadas a uma superstição nova e maléfica” (MACDOWELL, Josh, Evidências que exigem um veredito, Cadeia, 1992, pp.106). É provável que essa nova superstição maléfica seja a pregação primitiva a respeito da ressurreição de Cristo.

E o que aprendemos com Suetônio a respeito da historicidade de Cristo? Primeiro, ele relaciona a expulsão dos judeus de Roma, e que também atesta de que Cristo é que incitou os judeus a causar distúrbios em Roma, além de concordar com Tácito com relação ao conceito que a fé cristã tinha em face aos romanos e além do uso normal do termo cristão para se referir a essa fé.
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talmud-bigTalmude é a transliteração da palavra hebraica que significa “instrução, aprendizado”, proveniente da raiz do termo que significa “ensinar” ou “aprender”. O Talmude é composto por dois diferentes compêndios: (1) com a produção de citações anteriores ao ano 200dC., e provavelmente posteriores a 70dC., é conhecida como Mishná; (2) com a produção possivelmente posterior ao ano 500dC, que é conhecida como Gemará, que nada mais é do que o comentário à Mishná.

Segundo Habermas, a Mishná é resultado de uma tradição oral judaica transmitida de geração a geração e que foi “organizado por temas pelo Rabi Akiba antes de sua morte em 135 dC. Seu trabalho foi revisado pelo Rabi Meier. O projeto ficou pronto por volta de 200 dC pelo Rabi Judá” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.202).  Sobre a produção do Talmud, F.F. Bruce, com mais detalhes, afirma:

“O vultoso corpo de casuística legal, ‘a tradição dos anciãos’ referida no Novo Testamento, havia sido legado oralmente de geração a geração, avolumando-se mais e mais com o correr dos anos. O primeiro passo no sentido da codificação de todo esse material foi dado agora [pouco após a queda de Jerusalém]. O segundo deu-o o grande Rabino Akiba, o primeiro a sistematiza-lo consoante com os assuntos. Após a morte heroic de Akiba, por ocasião do fracasso da revolta de Bar Cocbá contra Roma, em 135 dC, procedeu a revisão e lhe continou a obra seu siscípulo, Rabino Meier. A obra de codificação chegou ao termo final por volta do ano 200, mercê do Rabino Judá, presidente do sinédrio de 170 a 217, Esse código completo de jurisprudência religiosa assim compilado é conhecido pelo designativo de Mishná” (BRUCE, F.F., Merece Confiança o Novo Testamento. Vida Nova, 1965, pp.131)

Em função do caráter da Mishná, um compêndio jurídico judaico feito por fariseus, não é de se esperar que muitas citações fossem feitas a Jesus ou a seus seguidores, afinal, esse não é o tipo de literatura para apresentação de histórias. Entretanto, em pouquíssimas citações que se faz, ou a Cristo ou aos cristãos, encontramos comentários hostis, porém, servem para atestar a historicidade de Cristo. Na Mishná, na 43ª seção do Sanhedrin, encontramos a seguinte declaração a respeito de Jesus Cristo:

“Na véspera da Páscoa eles penduraram Yeshu e antes disso, durante quarenta dias o arauto proclamou que [ele] seria apedrejado ‘por prática de magia e por enganar a Israel e fazê-lo desviar-se. Quem quer que saiba algo em sua defesa venha e interceda por ele’. Mas ninguém veio em sua defesa e eles o penduraram na véspera da páscoa” (GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética, VIDA, 2001, pp.450)

A primeira pergunta que deveríamos fazer é quem é Yeshu? Seria ele uma referência a Jesus Cristo? Na versão judaica de Jacob Shachter, H. Freedman debaixo da supervisão do Rabi I. Epstein, logo na introdução encontramos uma declaração interessante sobre o papel desse documento histórico para os cristãos:

“Aos olhos dos estudantes cristãos, o Sanhedrin sempre ocupou um lugar de predileção entre os tratados do Talmude em função da luz que ele é capaz de apresentar sobre o julgamento de Jesus de Nazaré. Não é sem significância que quando Reuchlin, o cristão campeão do aprendizado judaico, procurou em toda a Europa para encontrar uma cópia do Talmude, o único tesouro que conseguiu encontrar foi o Sanhedrin” (SHACHTER, Jacob, FREEDMAN, H., EPSTEIN, I., Sanhedrin, Translated into english with notes, glossary and índices, pp.xii)

Sobre o Talmud e sua alusão à figura histórica de Jesus Cristo, Wilcox afirma:

“A literatura tradicional judaica, embora mencione Jesus só muito raramente (e, seja como for, tem de ser usada com muita cautela), respalda a alegação do evangelho de que ele curava e fazia milagres, embora atribua tais atividades à magia. Além disso, ela preserva a lembrança de Jesus como professor, diz que ele tinha discípulos (cinco) e que, ao menos no período rabínico primitivo, nem todos os sábios haviam concluído que ele era ‘herege’ou ‘enganador’.” (WILCOX, M., Jesus in the light of his Jewish environment, n25.1, 1982, pp.133; IN: STROBEL, Lee, Em Defesa de Cristo, pp.112)
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luciano-de-samosataLuciano de Samosata (125 d.C. – 181 d.C.), foi um escritor sírio que escrevia em grego ático e em suas obras aproveitava para tratar com escárnios e sátiras o cristianismo e o seu fundador, Jesus Cristo. Em uma obra intitulada The Death of Peregrinus, na qual trata de satirizar a vida de Peregrinus Proteus, Luciano apresenta uma informação interessante a respeito de Cristo e dos cristãos:

“Os cristãos, como sabes, adoram um homem até hoje – o personagem distinto que introduziu seus rituais insólitos e foi crucificado por isso (…) Essas criaturas mal orientadas começam com a convicção geral de que são imortais o que explica o desdém pela morte e a devoção voluntária que são tão comuns entre ele; e ainda foi incutido neles pelo seu legislador original que são todos irmãos, desde o momento que se convertem, e vivem segundo as suas leis. Tudo isso adotam como fé, e como resultado desprezam todos os bens mundanos considerando-os simplesmente como propriedade comum” (Death of Pelegrine 11-3; IN: GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética – Vida 2002, pp.450)

Robert Voorst atesta que nessa sentença não existem dúvidas de autenticidade e é consistente com o que se conhece de Luciano (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.60), o que já nos induz a considerar as implicações dessa citação. Nesse caso, mais uma vez seguimos Habermas:

“(1) Somos informados de que Jesus era adorado pelos cristãos; (2) Também nos informa que Jesus iniciou novos ensinos na Palestina (sendo que o local é oferecido em outra parte não mencionada da seção II); (3) que Ele foi crucificado por causa dos seus ensinamentos. Jesus ensinou seus seguidores certas doutrinas, como (4) que os cristãos são irmãos; (5) a partir do momento da conversão e (6) depois que os falsos deuses são negados (tais quais os da Grécia). Adicionalmente, esses ensinos incluíam (7) adorar a Jesus e (8) viver de acordo com suas leis; (9) Luciano também se refere a Jesus como sábio” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.206-7)
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socratesMara Bar-Serapião era um filósofo estoico da província romana da Síria que tornou-se amplamente conhecido em função de uma carta que teria escrito a seu filho, também chamado Serapião, que segundo Robert E. Voorstpor fora escrita volta do ano 73 dC (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.53). Em função dessa carta tornou-se uma das primeiras referências não judaica e não cristã a se referir a Jesus Cristo. Ela foi publicada pela primeira vez no século XIX por Willian Cureton, que acreditava que Mara Bar-Serpaião era cristão sofrendo perseguição, opinião que os mais recentes acadêmicos rejeitam veementemente. Sobre essa carta, F.F. Bruce atesta:

“É uma carta enviada por um cidadão sírio, chamado Mara Bar-Serapião, ao filho de nome Serapião. Mara Bar-Serapiaão achava-se encarcerado por essa época, mas escrevia com o propósito de estimular ao filho na aquisição da sabedoria e ressaltava que aqueles que se davam à perseguição dos sábios eram fatalmente vítimas de infortúnios” – (BRUCE, F.F., Merece Confiança o Novo Testamento, Vida Nova, 1965, pp.148)

Para demonstrar o fato de que a perseguição de sábios leva a infortúnios, Mara Bar-Serapião afirma:

“Que proveito os atenienses abtiveram em condenar Sócrates à morte? Fome e peste lhe sobrevieram como castigo pelo crime que cometeram. Que vantagem os habitantes de Samos obtiveram ao pôr em fogo em Pitágoras? Logo depois sua terra ficou coberta de areia. Que vantagem os judeus obtiveram com a execução do seu sábio rei? Foi logo após esse acontecimento que o reino dos judeus foi aniquilado. Com justiça Deus vingou a morte desses três sábios: os atenienses morreram de fome; os habitantes de Samos foram surpreendidos pelo mar; os judeus arruinados e expulsos de sua terra, vivem completamente dispersos. Mas Sócrates não está morto, ele sobrevive aos ensinos de Platão. Pitágoras não está morto; ele sobrevive na estátua de Hera, Nem o sábio rei está morto; ele sobrevive nos ensinos que deixou” – (IN: GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética, Vida, 2003, pp.451)

A mais importante controvérsia, entretanto, refere-se a identidade do Sábio Rei: O sábio Rei é de fato Jesus Cristo? Por exemplo, Farrel Till defende que o Sábio Rei seja Jesus Cristo, pelo simples fato de que “pretensos messias eram encontrados às dúzias na Judéia” (TILL, Farrell, “The ‘Testimony’ of Mara Bar-Serapion“, The Skeptical Review 1995; IN: http://www.theskepticalreview.com/tsrmag/4mara95.html; em 03/05/2011). Jeffery Jay Lowder, seguindo Farrel defende ainda que também é possível que o Professor da Justiça, mencionado nos manuscritos de Quran também pudesse ser a referência a quem Mara Bar-Serapião endereça (LOWDER, Jeffery, J., Josh McDowell’s “Evidence” for Jesus: Is It Reliable?; IN: http://www.infidels.org/library/modern/jeff_lowder/jury/chap5.html#mara; em 03/05/2011).

Essa questão é importante, e era de se esperar que céticos questionassem sua veracidade comoreferência a Jesus Cristo, entretanto, devemos lembrar que existem ao menos sete declarações feitas por Mara Bar-Serapião que nos auxiliam a identificar o Sábio Rei: (1) Ele foi executado; (2) ele era sábio; (3) Foi executado pouco antes da destruição de Jerusalém; (4) Sua execução foi anterior à dispersão dos judeus; (5) os judeus foram responsáveis por sua morte; (6) ainda sobrevive por meio dos ensinos que deixou; (7) foi referido como rei.

Diante disso, devemos indagar qual personagem dentre das dúzias de candidatos a messias poderiam se enquadrar em todas as características do Sábio Rei de Mara. A primeira observação que fazemos é que a proposta de Lowder não pode se enquadrar na citação de Mara pelo simples fato de que o Professor da Justiça, citado nos manuscritos do mar morto, não é apresentado no mesmo documento como tenho sido executado, apesar de ter sido perseguido.

Outra observação que podemos fazer é que todas as mais famosas sugestões para o Rei Sábio, como Onias III e Judas o Essênio também não podem ser referidos, pelo simples fato de que o Rei Sábio de Mara foi executado pouco antes da queda de Jerusalém e da dispersão dos judeus. Se Onias fosse a referência, a dispersão dos judeus teria acontecido nada menos do que 240 anos mais tarde do que realmente aconteceu. Já com Judas o Essênio, seriam apenas 170 anos. Apesar da carta de Mara Bar-Serapião conter algumas dificuldades históricas relacionadas a Atenas e a Samos, um equívoco de tantos anos seria ainda improvável.

Por fim, a última controvérsia levantada por céticos refere-se ao fato de que Mara Bar-Serapião atribui a morte de Cristo aos judeus, o que se sabe que tecnicamente não é a informação mais correta, afinal, a morte de Cristo aconteceu nas mãos do romanos. É impressionante que esse seja de fato um argumento plausível para contestar a referência a Jesus Cristo nessa carta. O Novo Testamento está repleto de citações que atribuem a culpa aos judeus, como a primeira pregação de Pedro, por exemplo. Outro detalhe que se levanta quando se fala do antissemitismo na igreja primitiva, atenta-se a exatamente esse fato. Aliás, essa é uma das evidências que se tem para um carta mais antiga, afinal é bem provável que Mara Bar-Serapião tinha conhecimento da mensagem cristã da morte de Cristo como encomendada por judeus.

Ou seja, ainda que seja controvertida, essa carta oferece uma descrição interessante sobre Jesus Cristo, como Habermas sugere:

“Dessa passagem aprendemos: (1) que Jesus era considerado um homem virtuoso; (2) Ele é apresentado duas vezes como um Rei Judeu, possivelmente em referência aos próprios ensinos de Cristo sobre si mesmo,  ao qual os seguidores mencionavam, ou ainda da frase escrita sobre sua cabeça na cruficicação; (3) Jesus foi executado injustamente pelo judeus que pagaram por seus atos errados sofrendo brevemente o julgamento posteriormente, provavelmente uma referência a queda de Jerusalém para o exército romano; (4) Jesus vive nos ensinamentos dos cristãos primitivos, que é um indicativo de que Mara Bar Serapião não era  cristao” – (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.208)
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plc3adnioPlínio, o jovem (61 d.C. – 111 d.C.), jurista, político, e governador imperial. Plínio é reconhecido como governador da Bitínia, na Ásia Menor (112 dC) no período do Imperador Trajano, embora tenha sido senador e proeminente advogado em Roma (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.23). Sua fama foi assegurada por sua relação com o Imperador Trajano, a quem escreveu diversas cartas, das quais muitas sobrevivem até os dias de hoje. Sua escrita, muito precisa e elogiável, fez com que, segundo Voorst, Plínio carregasse a fama de ter inventado o estilo literário da carta. Habermas, por sua vez, cita F.F. Bruce o apresenta como “o maior escritor de cartas do mundo” e que suas cartas “ganharam o status de literatura clássica” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.198).

Dos dez livros de cartas que se conhecem de Plínio, é apenas no décimo livro, mais precisamente na carta 96 é que encontramos algo sobre o cristianismo primitivo e Cristo. Como supõe-se que essas cartas tenha sido organizadas cronologicamente, essa declaração é normalmente definida por volta de 112 dC.

Nessa carta ele fala sobre o rápido crescimento do Cristianismo na província da Bitínia, seja nas regiões urbanas ou rurais. Ele descreve a situação com templos romanos (pagãos) abandonados de tal forma que o “negócio daqueles que vendiam forragens para os animais sacrificiais fora afetado” (BARNETT, Paul, Finding the historical Jesus, Eedermans, 2009, pp.60). Ele também afirma ter interrogado aqueles que haviam sido acusado de serem cristãos e sentenciados a morte por isso, para verificar se insistiam em sua afirmação de serem de fato cristãos, como ele mesmo afirma, observe:

“Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas. Outros, cidadãos romanos portadores da mesma loucura, pus no rol dos que devem ser enviados a Roma” – (BOYLE, John Cork, ORRERY, The letters of Pliny the Younger: with observations on each letter, VOL.2, pp.426)

Plínio também fala de pessoas que haviam sido acusadas de serem cristãs, mas que assumiam que na verdade não eram, e a prova era adorar a imagem do Imperador bem como os deuses imperiais. Também exigia que esses acusados amaldiçoassem a Cristo, coisa que um cristão genuíno não seria capaz de fazer. Sobre esses “supostos” cristãos, Plínio atesta:

“Todos estes adoraram a tua imagem e as estátuas dos deuses e amaldiçoaram a Cristo, porém, afirmaram que a culpa deles, ou o erro, não passava do costume de se reunirem num dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus; de obrigarem-se, por juramento, a não cometer crimes, roubos, latrocínios e adultérios, a não faltar com a palavra dada e não negar um depósito exigido na justiça. Findos estes ritos, tinham o costume de se separarem e de se reunirem novamente para uma refeição comum e inocente, sendo que tinham renunciado à esta prática após a publicação de um edito teu onde, segundo as tuas ordens, se proibiam as associações secretas” (BOYLE, John Cork, ORRERY, The letters of Pliny the Younger: with observations on each letter, VOL.2, pp.427)

Plínio também fala sobre sobre duas escravas que eram consideradas “ministras”, nas quais não encontrou “nada além de uma superstição irracional e sem medida”. E em função disso suspendeu o inquérito pois precisava de um parecer específico de Trajano, como ele mesmo confessa:

“O assunto parece-me merecer a tua opinião, principalmente por causa do grande número de acusados. Há uma multidão de todas as idades, de todas as condições e dos dois sexos, que estão ou estarão em perigo, não apenas nas cidades mas também nas aldeias e campos onde se espalha o contágio dessa superstição; contudo, creio ser possível contê-la e exterminá-la” (BOYLE, John Cork, ORRERY, The letters of Pliny the Younger: with observations on each letter, VOL.2, pp.427-8)

Nas colocações de Plínio sobre o cristianismo primitivo em termos muito parecidos com os encontrados nos escritos de Tácito e Suetônio: para ele o cristianismo também era uma “superstição” “contagiante” que tinha condições de corromper o proceder romano. A autenticidade das cartas de Plínio não são contestadas, e portanto nelas encontramos mais um relato histórico sobre a historicidade de Cristo, e sobre ela Habermas conclui:

“(1) Cristo era adorado como Deus pelos antigos cristãos; (2) Plínio se refere posteriormente em sua cara que os ensinos de Cristo e seus seguidores eram excessivamente supersticiosos e contagiosos, como termo reminiscência de ambos, Tácito e Suetônio; (3) Os ensinos éticos de Cristo eram refletidos nos juramentos dos cristãos jamais seriam culpados pelos pecados mencionados nessa carta; (4) Provavelmente encontramos uma referência a instituição de Cristo da comunhão cristã celebrada na festa do amor, nas declarações de Plínio sobre a reunião deles para compartilhar comida. A referência aqui alude a acusação por parte dos não cristãos que os cristãos eram suspeitos de um ritual assassino e beber o sangue durante esses encontros, o que confirma nosso ponto de vista que a comunhão é o assunto a que Plínio se refere; (5) Há também uma possível referência ao Domingo na declaração de Plínio que os cristãos se encontravam em um dia específico” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.199-200)
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2-testemunhas-nao-biblicas-sobre-a-escuridao-ocorrida-na-crucificacao-de-jesus

Flégon foi um escritor greco-romano do início do século II. Suas Crônicas se perderam, mas um pequeno trecho dessa obra, que confirma a escuridão sobre a terra na hora da crucificação, também é mencionado por Júlio Africano. Depois de comentar a opinião ilógica de Talo sobre a escuridão, Júlio Africano cita Flégon: “Durante o tempo de Tibério César, ocorreu um eclipse do sol durante a lua cheia” (7/IIB, seção 256fl6,p. 1165). Flégon também é mencionado por Orígenes em Contra Celso (Livro 2, seções 14, 33, 59). Filôpão (De opif. mund. II 21) diz: “E sobre essas trevas… Flégon menciona-as em Olimpíadas (o título do livro que escreveu)”. Ele diz que “Flégon mencionou o eclipse que aconteceu durante a crucificação do Senhor Cristo e não algum outro eclipse; está claro que ele não tinha conhecimento, a partir de suas fontes, de qualquer eclipse (semelhante) que tivesse anteriormente ocorrido… e isso se vê nos próprios relatos históricos sobre Tibério César” (4/IIB, seção 257 fl6, c, p. 1165)

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