Desmistificando os “massacres” contra os Cananeus

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Muitos ateus se revoltam com as guerras do Antigo Testamento e dizem que Deus é maligno e perverso por ter matado crianças inocentes, de acordo com o mandamento de Deus de “destruir completamente” o povo de Canaã (Dt 7:2). Deus instruiu o rei de Israel a “destruir completamente toda a nação amalequita – homens, mulheres, crianças, bebês, gado, ovelhas, cabras, camelos e jumentos” (1 Samuel 15:3). Com isso podemos deduzir que Deus não existe?

O problema é que ao neo-ateu usar a objeção cananeia como evidência contra Deus ele revela desconhecimento na implicação que isso mostra a existência de Deus. Ou seja, se os ateus pensam que o “problema cananeu” é uma boa refutação do teísmo, estão muito enganados, e estão refutando na verdade o ateísmo. Se alegam que as ações dos israelitas estavam realmente erradas (objetivamente), estão demostrando que realmente Deus existe. Examine o Argumento Moral:

1- Se Deus não existe, não existem valores e deveres objetivos;

2- Valores e deveres morais objetivos existem;

3- Portanto, Deus existe.

Se os ateus advocam o “problema cananeu” e proclamam que era objetivamente errado expulsar os cananeus da terra, eles estão oferecendo evidências que sustentam a premissa (2) do Argumento Moral. Portanto, Deus existe. Se não pensam que foi realmente errado, então não têm nada a reclamar e a “dificuldade” dos cananeus some imediatamente.

O máximo que isso afeta é a inerrância bíblica, e não ao teísmo (muito menos a crença em Cristo).

Contudo, foi literalmente o que está escrito nessa passagem que aconteceu? Não há falácia neo-ateísta?

Vamos aos fatos: Deus esperou pacientemente mais de 400 anos até que os cananeus estivessem “prontos” para o julgamento (Gênesis 15:16).

Para o ataque israelita a Canaã, Deus fez duas coisas. Primeiro, Ele trouxe julgamento justo sobre os cananeus que mereciam – uma espécie de punição capital corporativa. Deus dirigiu esta destruição, no entanto, menos contra as pessoas canaanitas e mais à religião canaanita (Deuteronômio 7: 3-5; 12: 2,3.; Cp Êxodo 34: 12,13) [1], que era perversa.

Os deuses cananeus faziam todos os tipos de atos sexuais, incluindo incesto e bestialidade. [2] Não é de surpreender que os adoradores dessas divindades se envolvessem na prostituição ritual também – além do sacrifício infantil e outros atos horrendos.

O sacrifício humano foi algo pertinente para o povo que seguia a religião canaanita, isso é bem documentado por historiadores. K. L. Noll, um historiador da antiga cultura e religião do Oriente Próximo diz:

“O sacrifício humano aconteceu na religião canaanita em certas ocasiões. Esculturas de relevo egípcio, a Bíblia (por exemplo, 2 Reis 3), e outras fontes sugerem que, sob a coação de crise militar, o sacrifício humano foi oferecido ao divino patrono da cidade sitiada (Spalinger, 1978).” [3]

O povo fenício, oriundo dos canaanitas que foram seguidores desta religião sacrificavam crianças em Cártago [4] e em outras regiões, como K.L Noll continua dizendo:

“Na Tunísia moderna, na Sicília e na Sardenha, os arqueólogos encontraram evidências de outro tipo de sacrifício humano: sepulturas coletivas de crianças pequenas e uma caricatura que retrata um sacerdote oferecendo um bebê para uma divindade. A maioria dos estudiosos conclui que essas crianças foram vítimas de sacrifícios que ocorriam regularmente.” [5]

Alguns especialistas, tentando desviar dos fatos apresentados, asseguram que realmente aconteciam sacrifícios regulares de crianças nas áreas dominadas pelos seguidores da religião canaanita, mas afirmam que não se tem evidencia das mesmas práticas no Oriente Próximo, contudo Dr Andrew White assevera:

“O sacrifício de crianças não estava preso somente a Fenícia, Cartago e ao Mediterrâneo. Isso foi também praticado pelos cananeus e através do processo de sincretismo religioso por alguns israelitas. A referência mais antiga ao sacrifício de crianças na Bíblia é encontrada em Levítico, onde a prática é dirigida por Moisés em conexão com Moloque:

“Não oferecerás a Moloque nenhum dos teus filhos, fazendo-o passar pelo fogo; nem profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o Senhor.

(Levítico 18:21, veja também 20:1-5)

Em I Reis 11:7, Moloque é identificado como “O abominável e repugnante deus dos amonitas” e evidências arqueológicas recentes no antigo território dos amonitas do período da Conquista apoia o testemunho bíblico. Esse sacrifícios de crianças eram praticados na Jordânia de uma forma quase contemporânea a de Moisés.” [6]

Em seguida:

“A palavra hebraica Moloque é a da mesma raiz semítica da palavra púnica mulk que foi encontrado inscrito em vários monumentos funerários em Cartago que dão evidências linguísticas para a continuidade da prática de sacrifício de crianças em Canaã e em Cartago.” [7]

Para Norman Geisler:

“Era uma cultura inteiramente má, tanto assim que a Bíblia diz que dava náuseas a Deus. Estavam envolvidos na brutalidade, crueldade, incesto, bestialidade, prostituição religiosa e até mesmo o sacrifício de crianças na fogueira. Era uma cultura agressiva que queria aniquilar os israelitas. […] E veja o que aconteceu com os corruptos habitantes da cidade de Nínive. Deus iria julgá-los porque mereciam, mas eles se arrependeram e Deus salvou todo mundo.” [8]

William Lane Craig comenta:

“Na época de sua destruição, a cultura cananeia era, na verdade, pervertida e cruel, se envolvendo em práticas como prostituição ritual e até mesmo sacrifício infantil.” [9]

O acadêmico de Harvard G. Earnest Wright explica:

“O culto destes deuses [Baalismo] carrega com ele algumas das práticas as mais desmoralizantes até então na existência. Entre eles estavam o sacrifício de crianças, uma prática há muito descartada no Egito e na Babilônia, a prostituição “sagrada” e o culto de serpentes a uma escala desconhecida entre outros povos” [10]

John Wenham escreve:

“Os sacrifícios de Moloque foram oferecidos especialmente em conexão com votos e promessas solenes, e as crianças foram sacrificadas como a garantia mais dura e mais vinculante da santidade de uma promessa.” [11]

“Não é de surpreender que o vale de Hinom (Gehenna), onde a adoração de Moloque foi praticada nos dias de Manassés, deveria ter fornecido a imagem judaica do inferno.” [12]

O estudioso Clay Jones infere:

“Moloque era uma divindade do submundo cananeu representada como um ídolo ereto e de cabeça de touro com corpo humano em cuja barriga havia um fogo aceso e em cujos braços estendidos uma criança era colocada que seria queimada até a morte … e não eram apenas bebês; crianças de até quatro anos foram sacrificadas.” [13]

“Uma imagem de bronze de Cronos [representando Moloque] foi montada entre eles, estendendo suas mãos em concha sobre um caldeirão de bronze, que queimaria a criança.” [14]

Apesar de haver muita discussão se a palavra “mulk” refere-se à uma deidade chamada Moloque que recebia sacrifícios ou se denota somente um sacrifício humano para qualquer uma divindade, [15] se estabelece seguramente para muitos estudiosos do contexto cultural do Oriente Médio que houve infanticídio ritualístico por parte dos cananeus, demonstrado pelo falecido professor emérito de história teológica e história da Igreja, Geoffrey W. Bromiley. [16]

A Bíblia nos diz que a destruição dos cananeus não era um julgamento racial. Deus declarou explicitamente que essas pessoas estavam a ser executadas por causa de suas terríveis e sádicas ações (Lev. 18:20-30). Caso o povo judeu praticasse as mesmas ações, a promessa de punição seria igual (Levítico 18:29). Permitir aos canaanitas a coexistência com Israel levaria a nação israelita ao caos. (Êx 23: 20-33).

Os cananeus foram os primeiros a atacarem os judeus, não o contrário. Um dos grupos de povos cananeus (os amalequitas) foram ao ataque contra o povo hebreu durante os dias de percurso no deserto (Ex. 17), e isto ocorreu repetidas vezes (Números 14:45, Deuteronômio 25: 17-19); em meio à fraqueza dos israelitas (Deuteronômio 23:3-4). John Wenham observa: “Exércitos antigos neste território não faziam prisioneiros. Eles acabariam com eles totalmente”. [17] Não teria havido nenhuma clemência para o povo judeu.

Quando os nazistas tentaram exterminar judeus no século XX, a comunidade internacional não se empenhou em propor medidas contrárias E, no entanto, claramente, essas nações estavam tentando executar o mesmo atentado – ainda que mais de três milênios antes. Em vez de usarem câmaras de gás, os cananeus portariam espadas e lanças, e o resultado não seria muito diferente. Se Deus não comandasse a guerra, os judeus seriam extinguidos. Era matar ou ser morto.

Portanto, a guerra com os cananeus não foi a destruição de um grupo inocente de pessoas. Era a punição capital corporativa de uma cultura doente, retorcida e bárbara. Se um homem moderno fosse apanhado praticando qualquer um desses atos, poucos seriam negativos à sentença de morte dele. Enquanto a destruição dos cananeus era um julgamento severo, seu pecado era igualmente severo.

2. Os judeus geralmente não entravam em guerras ofensivas – apenas defensivas:

Os israelitas não tinham permissão para conquistar quem quisessem. De fato, quando eles tentaram conquistar povos sem a aprovação divina, eram totalmente derrotados (1 Sam. 4, Núm 14: 41-45, Jos 7). O rei estava abaixo de Deus – não sobre Ele. [18]. Após a batalha com Canaã, Deus não orientou quaisquer outras batalhas ofensivas em Israel. Mesmo durante este tempo, as guerras de Israel eram geralmente ligadas à defesa (ver Ex. 17: 8, Números 21: 1, Deuteronômio 3: 1, Josué 10: 4, Números 31: 2-3). Copan escreve:

“Todas as batalhas sancionadas por Yahweh além do tempo de Josué eram defensivas, incluindo a batalha de Josué para defender Gibeão (Josué 10-11). É claro que, enquanto certas batalhas ofensivas teve lugar durante o tempo dos juízes e sob Davi e além, estas não são recomendadas como ideais ou exemplares “. [19]

3. Deus não tem favoritos:

Ao longo da Bíblia, vemos que Deus se preocupa com todas as pessoas. Embora os moabitas fossem completamente maus, Deus demonstra compaixão por eles (Isaías 15:5 e 16:9). Apesar dos assírios e egípcios oprimirem os judeus, Deus se refere a eles como “meu povo” (Isaías 19:25). Repetidamente, no percorrer do AT, vemos que Deus ama o estrangeiro (Levítico 19: 33-34, Deuteronômio 10: 18-19), e ele não mostra tratamento preferencial. Em meio a previsão da destruição dos cananeus, vemos a imparcialidade no caráter de Deus. Em Deuteronômio 9: 1-6, lemos:

“Ouça, ó Israel: Hoje você está atravessando o Jordão para entrar na terra e conquistar nações maiores e mais poderosas do que você, as quais têm cidades grandes, com muros que vão até o céu. O povo é forte e alto. São enaquins! Você já ouviu falar deles e até conhece o que se diz: “Quem é capaz de resistir aos enaquins? ” Esteja, hoje, certo de que o Senhor, o seu Deus, ele mesmo, vai adiante de você como fogo consumidor. Ele os exterminará e os subjugará diante de você. E você os expulsará e os destruirá, como o Senhor lhe prometeu. Depois que o Senhor, o seu Deus, os tiver expulsado da presença de você, não diga a si mesmo: “O Senhor nos trouxe aqui para tomarmos posse desta terra por causa da nossa justiça”. Não! É devido à impiedade destas nações que o Senhor vai expulsá-las da presença de você. Não é por causa de sua justiça ou de sua retidão que você conquistará a terra deles. Mas é por causa da maldade destas nações que o Senhor, o seu Deus, as expulsará de diante de você, para cumprir a palavra que o Senhor prometeu, sob juramento, aos seus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó. Portanto, esteja certo de que não é por causa de sua justiça que o Senhor seu Deus lhe dá esta boa terra para dela tomar posse, pois você é um povo obstinado.”

Deus reconheceu que os judeus eram “um povo obstinado”. E, no entanto, Ele queria usar a nação de Israel para trazer uma bênção ao mundo (Gênesis 12: 2-3; 18:18; 22:18; 26: 4 28:14, Ex. 9:16, Josué 4:24, 1 Reis 8: 41-43, Salmo 72:17, Jeremias 4: 2, Zacarias 8:13, Ezequiel 36: 22-23 , Is. 19: 24-25, 37:20, 45: 22-23, 52:10, 66: 18-19). Se Israel tivesse sido destruída, isso teria implicado negativamente o plano de Deus para trazer bênção através do Messias. Portanto, Deus escolheu os judeus não para acabar com os outros povos, mas para abençoa-los.

4. Deus deu aos cananeus a oportunidade de mudar:

Deus espera pacientemente que todas as pessoas se voltem para ele, e é lento para se irar (Êxodo 34:6-7, Salmo 103:8, Jonas 4:2). O Senhor se compadeceu dos ninivitas, afastando-os do julgamento, porquê:

“Nínive tem mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos rebanhos. Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?” (Jonas 4:11).

Em Ezequiel, Deus não tem prazer no julgamento dos ímpios (Ezequiel 33:11). Em Jeremias, Ele diz que os livrará do julgamento, se os ímpios se arrependerem de seus comportamentos:

“Se em algum momento eu decretar que uma nação ou um reino seja arrancado, despedaçado e arruinado, e se essa nação que eu adverti converter-se da sua perversidade, então eu me arrependerei e não trarei sobre ela a desgraça que eu tinha planejado.” (Jeremias 18:7,8)

Se esses homens tivessem se arrependido, Deus não os condenaria.

Novamente, Deus aguardou 400 anos para que os cananeus pudessem ter a oportunidade de mudar. Ele não os julgou imediatamente, porque os pecados dos cananeus “ainda não justificavam a sua destruição” (Gn 15.13; 16 ). Ou seja, não estavam além do ponto de retorno. No entanto, no momento em que os judeus entraram na batalha, já estavam prontos para serem julgados.

Durante este período de 400 anos, os cananeus sabiam que Deus estava vindo por eles. O Senhor destruiu Sodoma e Gomorra, cidades habitadas por cananeus. Quando os hebreus estavam na fronteira, prontos para lutar, Raabe disse-lhes que haviam ouvido falar do juízo de Deus sobre o Egito (Josué 2:10, 9:9). Mas os cananeus ignoraram desafiadoramente as sérias advertências. [20]

5. Diplomacia foi o método usual:

Quando Israel ingressava em guerra contra uma nação (permitida por Ele), costumavam oferecer um tratado de paz antes. Deuteronômio 20:10 diz:

“Quando você se aproximar de uma cidade para combatê-la, você deve oferecer condições de paz.”

Se o povo se rendesse, eles não seriam prejudicados. Mas deveriam estar prontos para fazer qualquer serviço à Israel, além de fornecerem impostos. Isso pode parecer duro, mas não se esqueça do contexto do Oriente Próximo. Quando os amonitas cercaram uma das cidades de Israel, exigiram que cada cidadão arrancasse um dos seus olhos, como um termo de paz e rendição (1 Sm 11:1-2). É por isso que as nações vizinhas consideravam os reis hebreus como “reis misericordiosos” (1 Reis 20:31).

Este tratado de paz não foi oferecido a estes sete grupos de povos em Canaã (Ex. heteus, amorreus, cananeus, perizeus, heveus, e jebuseus), como Deuteronômio 20:16 explicita. Isso provavelmente ocorreu porque os judeus foram ao rei de Hesbom (dos amorreus) com “palavras de paz” (Deuteronômio 2:26), mas o rei “não estava disposto” a deixá-los passar por sua terra (Deuteronômio 2:30). No entanto, aqueles que estavam dispostos a abandonar Canaã provavelmente foram poupados. Como toda a família de Raabe poupada de julgamento (Jos 2:13), por se render aos judeus. Os restantes dos cananeus foram mortos porque escolheram ficar. [21]

6. As ações de Josué eram leves em comparação com o resto do antigo Oriente Próximo:

No livro de Josué, lemos:

“Quando os levaram a Josué, ele convocou todos os homens de Israel e disse aos comandantes do exército que o tinham acompanhado: “Venham aqui e ponham o pé no pescoço destes reis”. E eles obedeceram. Disse-lhes Josué: “Não tenham medo! Não se desanimem! Sejam fortes e corajosos! É isso que o Senhor fará com todos os inimigos que vocês tiverem que combater”. Depois Josué matou os reis e mandou pendurá-los em cinco árvores, onde ficaram até à tarde. Ao pôr-do-sol, sob as ordens de Josué, eles foram tirados das árvores e jogados na caverna onde haviam se escondido. Na entrada da caverna colocaram grandes pedras, que lá estão até hoje.” (Josué 10:24-27)

Quando os modernistas leem esta passagem, muitos ficam horrorizados, mas quando comparamos isso com o antigo Oriente Próximo, vemos que isso foi pacífico. Copan escreve:

“Os anais neo-assírios de Assurnasirpal II (883-859 aC) tomavam prazer em descrever o esfolamento de vítimas vivas, o empalamento de indivíduos em pólos e os corpos amontoados em amostra. Eles se vangloriavam de como o rei montava corpos e colocava cabeças em pilhas; o rei se gabava de arrancar os olhos das tropas e cortar as orelhas e os membros, seguido pela exibição de suas cabeças ao redor de uma cidade. [22]”

A guerra era uma parte sangrenta do antigo Oriente Próximo. No entanto, em Josué 10, os reis não foram torturados ou humilhados. Em vez disso, receberam uma rápida execução militar. Ao pendurarem seus corpos, Josué estava dando uma lição objetiva para o povo de que esses homens maus seriam julgados por Deus por sua crueldade (Deuteronômio 21:23). Ou seja, ele estava enfatizando que este não era o julgamento humano – mas o julgamento divino.

7. “Destruir completamente” não é uma linguagem absoluta:

Quando Deus deu o comando de “destruir completamente” os cananeus, existem evidências de que isto fosse semelhante à antiga retórica de guerra no Oriente Próximo ou uma linguagem hiperbólica. Existem várias razões para acreditar nisso:

Primeiro, alguns cananeus sobreviveram à guerra, apesar de Josué afirmar que eles tinham destruído “todos”. Josué registra:

Assim Josué conquistou a região toda, incluindo a serra central, o Neguebe, as encostas e as vertentes, e derrotou todos os seus reis, sem deixar sobrevivente algum. Exterminou tudo o que respirava, conforme o Senhor, o Deus de Israel, tinha ordenado (…) Assim Josué conquistou toda aquela terra: a serra central, todo o Neguebe, toda a região de Gósen, a Sefelá, a Arabá e os montes de Israel e suas planícies” (Josué 10:40; 11:16).

Repetidamente, ele declara que cumpriu o mandamento de destruir totalmente os cananeus “como Moisés, servo do Senhor, havia ordenado” (Josué 11:12, 15, 20). No entanto, várias vezes constatamos que não tomou toda a terra (Josué 13: 1-5), e não desapropriou todas as pessoas (Josué 13:13.). Josué declara que havia “destruído completamente” o povo de Anaque (Josué 11: 21-22), a seguir, Calebe pede permissão para expulsar os Anaquins (Josué 14: 12-15; 15: 13-19). Em Juízes é registrado que “os cananeus persistiram em viver naquela terra” (Jz 1:21) e “não expulsaram os cananeus completamente” (Jz 1:28). No tempo de Salomão, vemos que os “amorreus, os heteus, os perizeus, os heveus e os jebuseus” ainda existiam na terra, porque “os filhos de Israel não foram capazes de destruí-los totalmente” (I Reis 9:20 – 21).

Moisés escreve que uma geração futura de israelitas “será totalmente destruída” (Deuteronômio 4:26). E consequentemente, Israel sobreviveu ao ser “completamente destruída”.

Um outro exemplo. Deus ordenou ao Rei Saul:

“Agora vão, ataquem os amalequitas e consagrem ao SENHOR para destruição tudo o que lhes pertence. Não os poupem; matem homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, bois, ovelhas, camelos e jumentos” (1Sm 15: 3).

Saul executou conforme comandado a ele “destruir totalmente a todos os povos com o fio da espada” (1 Sam. 15:8). Posteriormente, os homens de Davi lutaram contra várias tribos, incluindo os amalequitas “completamente destruídos” ( 1 Sam 27:8, ver 1 Crônicas 4:43). Não são erros textuais. Em vez disso, podemos estar interpretando mal o texto, quando consideramos que estas são afirmações absolutas.

Mesmo depois da guerra com Canaã, os judeus ainda eram avisados sobre casamentos mistos com outros povos (Josué 23: 12-13, Deuteronômio 7:2-5). Seriam advertências inúteis, a menos que ainda houvessem sobreviventes.

Isso fornece evidência para a interpretação de que a linguagem absoluta desta guerra pode não ser absoluta. Em vez disso, este poderia ser um caso de linguagem hiperbólica, pelo qual o autor usa a linguagem abrangente para causar um efeito.

Podemos dizer:

“Todo mundo já ouviu a nova música do Rosa de Saron.”

ou

“Toda a cidade estava em alvoroço após a reportagem.”

A Bíblia usa linguagem hiperbólica ao dizer também que “toda nação debaixo do céu” veio a Jerusalém no Pentecostes (Atos 2:5).

Em segundo lugar, a retórica de guerra era comum no AOM (Antigo Oriente Médio). Copan cita os dizeres de Egito Tutmosis III, o rei hitita Mursilli II, Ramsés II, a Estela de Merneptah, o rei Mesa de Moabe e o governante assírio Senaqueribe. [23] Cada uma destas fontes usa uma linguagem que é semelhante a de Josué. Enquanto o rei afirmou que “todos” foram mortos, alguns ainda sobreviveram. Dito de outra forma, esta retórica de guerra foi usada para descrever a destruição da nação, ao invés de cada indivíduo. Não devemos considerar falsas as afirmações; nós consideraríamos hiperbólicas, como elas devem ser.

Em terceiro lugar, o foco desta guerra era destruir a vida religiosa dos cananeus e suas fortalezas militares (Deut. 12: 2-3). Por isso Acão foi morto por roubar bens da cidade de Ai (Josué 7:20-26), ninguém foi morto por poupar civis. O estudioso do Antigo Testamento Richard Hess disserta: “O foco é sobre a liderança, os reis, e não toda a cidade em si. A elite dominante opôs-se a Josué. Nada é dito dos cidadãos dessas cidades e sua atitudes”. [24]

Em quarto lugar, Moisés e Josué usam três palavras ou mais para descrever a guerra. Considere o uso destes três termos abaixo:

Expulsar: Aqui podemos ver o que Moisés diz, parafraseando Deus:

“Mandarei adiante de vocês o meu terror, que porá em confusão todas as nações que vocês encontrarem. Farei que todos os seus inimigos virem as costas e fujam (…) Eu os expulsarei aos poucos, até que vocês sejam numerosos o suficiente para tomar posse da terra.” (Êxodo 23:27, 30).

Isto ensina que a guerra seria um processo. Isso também implica que muitas das pessoas que partiram ficariam vivas. A mesma linguagem de ser “expulsos” descreve Adão e Eva (Gênesis 3:24), Caim (Gênesis 4:14) e Davi (1 Sam. 26:19) – todos foram deixados vivos.

Moisés também tinha “expulsado os amorreus” na sua época (Números 21:32). Em seguida escreve: “Você está cruzando o Jordão hoje para expulsar nações maiores e mais poderosas do que você” (Deut. 9: 1; 11:23; 18:14; 19: 1; etc.). Outros termos são “possuir”, “conquistar”, “despojar” e etc.

Arruinar e destruir: Esse verso é para Israel, onde Moisés diz:

“Assim como foi agradável ao Senhor fazê-los prosperar e aumentar em número, também lhe será agradável arruiná-los e destruí-los. Vocês serão desarraigados da terra em que estão entrando para dela tomar posse.” (Deuterônomio 28:63)

Quando este evento ocorreu, aqueles que fugiram da cidade foram poupados (Jer. 38: 2, 17). Outros termos podem ser “perecer” e etc.

À primeira vista, todos esses termos parecem se referir a uma destruição absoluta do povo. Entretanto ao analisar os demais usos na Bíblia, descobrimos que essas não são expressões absolutas.

8. E as mulheres e crianças?

Como já vimos, o comando de “destruir completamente” poderia ter sido uma linguagem hiperbólica, o que era consistente com a antiga retórica de guerra do Oriente Próximo. Outros pontos podem ser feitos acerca das mulheres e crianças.

Em primeiro lugar, essas cidades eram fortalezas militares. Não eram para civis. Ou seja, essas cidades podem não ter contido mulheres e crianças. Copan escreve:

“Não há evidências arqueológicas de populações civis em Jericó ou Ai. Dado o que sabemos sobre a vida cananeia na Idade do Bronze, Jericó e Ai eram redutos militares … O uso de palavras como “mulheres” e “jovem e velho ” estavam apenas em conformidade com a idiomática do Oriente Médio que poderia ser usada mesmo se as mulheres e jovens e velhos não vivessem lá. A linguagem de “todos” (“homens e mulheres”) em Jericó e Ai é uma “expressão estereotipada da destruição de toda a vida humana no forte, presumivelmente composta inteiramente de combatentes.” [25]

O texto não exige que as mulheres e jovens e velhos vivessem nessas cidades.

O único exemplo de uma mulher em uma dessas cidades é Raabe, e ela foi poupada (Josué 2). Portanto, é possível que mulheres e crianças não estivessem lá, ou se estivessem lá, a vida inocente foi poupada.

É necessário pontuar que as mulheres cananeias estavam longe de serem inocentes. Em Números 25:1-2, as midianitas foram culpadas por seduzir os homens israelitas. Este ato era mais do que simplesmente dormir com eles. Homens foram seduzidos para adoração de Baal como resultado (Nm 31: 16-18). Lembre-se, a adoração de Baal não era um culto inocente; era uma abominação onde havia sacríficios de crianças.

Em finalização à essa apresentação histórica e arqueológica onde se mostra que não se trata de um extermínio da imensidão conferida pelos neo-ateus, resumimos dessa forma:

1- Objeções como estas não refutam o teísmo cristão; esta objeção é simplesmente um argumento contra a inerrância bíblica (uma doutrina não-essencial) nada mais; [26]

2- Os cananeus eram ímpios (a par com ISIS) e estavam prontos para serem julgados;

3- A batalha foi principalmente sobre a terra, pois Deus não havia ordenado que caçassem os cananeus até os confins da Terra;

4- A Bíblia é clara ao mostrar que todos os cananeus não foram executados;

5- Esses comandos poderiam muito bem ter sido um discurso figurativo;

6- Objeções como essas sustentam a premissa (2) do argumento moral para a existência de Deus (Portanto, Deus existe);

7- Dada a propriedade de Deus de onisciência e inteligência perfeita, Deus toma a melhor decisão em cada cenário e situação. Deus saberia o caos que aconteceria se Ele não emitisse os comandos para destruir os cananeus, mesmo se fosse no caso das crianças e mulheres (que pelas evidências parece não ter acontecido).

 


[1] (Yahweh Wars: Divinely Mandated Genocide or Corporate Capital Punishment?)http://www.epsociety.org/library/articles.asp?pid=63.

[2] http://enrichmentjournal.ag.org/2…/201004_138_Canannites.cfm

[3] http://people.brandonu.ca/nollk/canaanite-religion/

[4] http://mundoestranho.abril.com.br/…/como-era-um-ritual-de-…/

[5] http://people.brandonu.ca/nollk/canaanite-religion/

[6] http://bmei.org/…/white_abortion_and_the_ancient_practice_o…

Wenham, G.J., The New International Commentary on the Old Testament – The Book of Leviticus, 1979, p. 259

[7] http://bmei.org/…/white_abortion_and_the_ancient_practice_o…

[8] [Norman Geisler, entrevistado por Lee Strobel em “Se Deus mata crianças inocentes, ele não é digno de adoração” em “Em defesa da fé”, p. 168]

[9] http://www.reasonablefaith.org/po…/o-exterminio-dos-cananeus

[10] Wright, G. Ernest, and Floyd V. Filson. The Westminster Historical Atlas to the Bible. Philadelphia: Westminster, 1945. 36.

[11] Wenham, John William. The Goodness of God. Downers Grove, IL: InterVarsity, 1974. 126.

[12] Wenham, John William. The Goodness of God. Downers Grove, IL: InterVarsity, 1974. 127.

[13] Clay Jones, “Why We Don’t Hate Sin so We don’t Understand What Happened to the Canaanites: An Addendum to ‘Divine Genocide’ Arguments,” Philosophia Christi n.s. 11 (2009): 61.

[14] Clay Jones, “Why We Don’t Hate Sin so We don’t Understand What Happened to the Canaanites: An Addendum to ‘Divine Genocide’ Arguments,” Philosophia Christi n.s. 11 (2009): 61. See footnote.

[15] http://bmei.org/…/white_abortion_and_the_ancient_practice_o…

[16] The International Standard Bible Encyclopedia, Volume 4

[17] Wenham, John William. The Goodness of God. Downers Grove, IL: InterVarsity, 1974. 124

[18] Observe, também, a relação entre o Rei e a Lei em Israel. No mundo pagão, o rei era o legislador e o comandante chefe, que podia quebrar ou revisar a lei a qualquer momento. Quando olhamos para a narrativa do VT, no entanto, vemos que o rei não estava acima da lei de Deus; Em vez disso, ele estava abaixo dela. Este conceito de “lex rex” era completamente desconhecido para o Oriente Próximo Antigo, que praticava “rex lex”. Por exemplo, Natã confrontou Davi sobre seu assassinato e adultério com base na lei de Deus (2 Samuel 12). Elias desafiou o assassinato de Nabote de Acabe baseado na lei (1 Reis 21). Uzias recebeu lepra para assumir o papel de sacerdote, que estava fora de sua jurisdição legal (2 Crônicas 26).

[19] Copan, Paul. Is God a Moral Monster?: Making Sense of the Old Testament God. Grand Rapids, MI: Baker, 2011. 178.

[20] Mesmo depois deste grande e terrível julgamento, os cananeus continuaram a perseguir os judeus (Juízes 3:13; 6: 3; 7:12; 1 Sam. 15).

[21] Da mesma forma, quando o Egito foi julgado, muitos civis egípcios (“uma grande mistura de gente”) foram poupados (Êxodo 12:38). De fato, até mesmo alguns do povo de Faraó acreditaram em Deus e escaparam do julgamento (Êxodo 9: 19-21).

[22] Copan, Paul. Is God a Moral Monster?: Making Sense of the Old Testament God. Grand Rapids, MI: Baker, 2011. 179.

[23] Copan, Paul. Is God a Moral Monster?: Making Sense of the Old Testament God. Grand Rapids, MI: Baker, 2011. 172.

[24] Hess, Richard S. Joshua: An Introduction and Commentary. Downers Grove, IL: InterVarsity, 1996. 217.

[25] Copan, Paul. Is God a Moral Monster?: Making Sense of the Old Testament God. Grand Rapids, MI: Baker, 2011. 175-176.

[26] http://www.reasonablefaith.org/portuguese/qual-o-custo-da-errancia-biblica

Traduzido e adaptado de: http://www.evidenceunseen.com/what-about-the-canaanite-genocide/

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