O Papel Essencial da Religião no Mundo

importancia da religiao - dp

1. A Importância da Religião no Mundo Inteiro

Sempre me interessei pela liberdade religiosa. Minha primeira publicação como jovem professor de Direito na Universidade de Chicago há 54 anos foi um livro editado sobre a relação entre igreja e Estado nos Estados Unidos.[1]

Hoje, muito mais do que naquela época, nenhum de nós pode ignorar a importância mundial da religião, na política, na resolução de conflitos, no desenvolvimento econômico, na ajuda humanitária e muito mais. Oitenta e quatro por cento da população do mundo se identifica com uma determinada religião,[2] mas 77% dos habitantes do mundo vivem em países com restrições elevadas ou muito elevadas relacionadas à liberdade religiosa.[3]

Entender a religião e sua relação com as preocupações mundiais e com os governos é essencial para tentar melhorar o mundo em que vivemos.

Apesar de a liberdade religiosa ser desconhecida na maior parte do mundo e ser ameaçada pelo secularismo e extremismo no restante, defendo a situação ideal na qual as liberdades que a religião busca proteger são dadas por Deus e inerentes, mas são implementadas por meio de relacionamentos complementares mútuos com governos que buscam o bem-estar de todos os seus cidadãos.

Consequentemente, todos os governos devem assegurar a liberdade religiosa para seus cidadãos. O Artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas declara: “Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular”.[4]

As responsabilidades complementares da religião, por meio de seus seguidores, são cumprir as leis e respeitar a cultura do país que assegura suas liberdades. Quando liberdades religiosas são asseguradas, a resposta é um débito de gratidão pago com alegria.

Se houvesse aceitação e aplicação uniformes desses princípios gerais, não haveria necessidade de discussões sobre liberdade de religião. Mas, como todos sabemos, nosso mundo está repleto de conflitos, pois esses princípios gerais não são seguidos. Por exemplo, vozes influentes estão agora desafiando a ideia total de proteções especiais para a religião. Um desses livros tem o título de Freedom from Religion [Libertando-nos da Religião] e outro, Why Tolerate Religion? [Por Que Tolerar a Religião?][5]

Outras vozes buscam marginalizar a liberdade religiosa ao ensino nas igrejas, sinagogas e mesquitas, enquanto negam o exercício das crenças religiosas em público. É claro que tais tentativas violam a garantia da Declaração Universal do direito de manifestar sua religião ou suas crenças “em público ou particular”. O livre exercício da religião precisa também aplicar-se quando os seguidores atuam como uma comunidade, como quando unem esforços na área educacional, médica e cultural.

2. Valores Sociais da Religião

As crenças e práticas religiosas são também criticadas como sendo irracionais e contrárias a metas sociais e governamentais importantes. Eu, obviamente, sustento que a religião é de valor inquestionável para a sociedade. Como um ateu admitiu recentemente em um livro;

“Uma pessoa não tem que ser religiosa para entender que os valores fundamentais da civilização ocidental têm como base a religião e que deve ter consciência de que a erosão da observância religiosa, por consequência, enfraquece esses valores”.[6] Um desses “valores fundamentais” é o conceito da dignidade e do valor inerente ao ser humano.

Aqui estão sete outros exemplos dos valores sociais da religião:

1. Muitos dos mais importantes avanços morais da civilização ocidental foram motivados por princípios religiosos e a persuasiva pregação nos púlpitos culminou em sua adoção oficial. Foi assim que com a abolição do comércio de escravos no Império Britânico, a Proclamação da Independência nos Estados Unidos e o movimento dos Direitos Civis na última recente metade do século, Esses avanços não foram motivados e desenvolvidos pela ética secular, mas foram dirigidos primeiramente por pessoas que tinham uma visão religiosa clara do que era moralmente correto.

2. Nos Estados Unidos, nosso gigantesco setor privado de obras de caridade — na educação, em hospitais, no cuidado dos pobres e incontáveis outros serviços da caridade de grande valor — originou-se com o patrocínio, que ainda continua de maneira significativa, de organizações religiosas e movimentos religiosos.

3. As sociedades ocidentais não são controladas fundamentalmente pela aplicação das leis, o que seria impraticável, mas pelos cidadãos que voluntariamente obedecem às leis devido a suas normas internas de comportamento correto. Para muitos, é a crença religiosa do certo e do errado e da responsabilidade perante um poder superior que produz tal comportamento voluntário. De fato, os valores religiosos e as realidades políticas acham-se tão interligados na origem e perpetuação das nações ocidentais que não podemos perder a influência da religião na vida pública sem ameaçar seriamente nossas liberdades.

4. Junto a seus parceiros privados, as organizações religiosas servem como instituições mediadoras para influenciar e limitar o poder invasivo do governo com organizações particulares e individuais.

5. A religião inspira muitos fiéis a prestar serviço ao próximo, o que, no geral, traz enormes benefícios ás comunidades e aos países.

6. A religião fortalece a estrutura social da sociedade. Como o Rabino Jonathan Sacks ensinou: “[A religião] permanece como a edificadora de comunidades mais poderosa que o mundo conhece. (…) A religião é o melhor antídoto ao individualismo desta era de consumo. A ideia de que a sociedade pode sobreviver sem ela opõe-se ao que a história mostra”.[7]

7. Finalmente, Clayton M. Christensen, um SUD* que é aclamado mundialmente como “formador de opinião” na administração e inovação de empresas[8], escreveu que “a religião é a base da democracia e da prosperidade”.[9] Muito mais poderia ser dito sobre o papel positivo da religião no desenvolvimento econômico.

Reafirmo que os ensinamentos religiosos e que as ações dos fiéis por motivos religiosos são essenciais para uma sociedade livre e próspera e continuam a merecer proteções legais especiais.

__________________

* Os Santos dos Últimos Dias (SUD), mais popularmente conhecidos como Mórmons, é um movimento religioso restauracionista iniciado no século XIX nos Estados Unidos da América e liderado inicialmente por Joseph Smith Jr., definido pelos seus seguidores como primeiro profeta desta época.

[1] The Wall between Church and State, ed. Dakkub H. Iaks, 1963.
[2] Pew Research Center, “The Global Religious Landscape: A Report on the Size and Distribution of the World´s Major Religious Groups as of 2010”, dezembro de 2012, pp. 9,24; pewforum.org.
[3] Pew Research Center, “Latest Trends in Religious Restrictions and Hostilitles”, 26 de fevereiro de 2015, p. 4; pewforum.org.
[4] Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, un.org. Esses preceitos de proteção para a prática religiosa são amplamente reconhecidos em documentos de direitos humanos regionais e internacionais. Ver por exemplo, os textos a seguir: “International Covenant on Civil and Political Rights”, 16 de dezembro de 1966, Artigo 18; “Declaration on the Elimination of All Forms of Intolerance and of Discrimination Based on Religion or Belief”, 1981, Artigo 1; “European Convention for the Protection of Human Rights and Fundamental Freedoms”, 1950, Artigo 9; “American Convention on Human Rights”, 22 de novembro de 1969, Artigo 12; e “African Charter on Human and People´s Rights”, 27 de novembro de 1981, Artigo 8.
[5] Amos N. Guiora, Freedom from Religion: Rights and National Security;2009, e Brian Leiter, Why Tolerate Religion?, 2012.
[6] Melanic Phillips, The World Turned Upxide Down: The Global Battle over Gord. Truth, and Power, 2010, p. XVIII.
[7] Jonathan Sacks, “The Moral Animal”, New York Times, 23 de dezembro de 2012; nytimes.com.
[8] Jena McGregor, “The World´s Most Ingluential Management Thinker?”, Washington Post, 12 de novembro de 2012, washingtonpost.com.
[9] Clayton Christensen, “Religion Is the Foundation of Democracy and Prosperity”, 8 de fevereiro de 2011; mormonperspectives.com.

FONTE: Revista “A Liahona”, junho de 2017, pp. 16-17.

 

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