Argumento Cosmológico de Leibniz

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Por que algo sequer existe? Para Leibniz, essa era a questão mais básica que alguém pode fazer. Assim como nós, Leibniz chegou à conclusão de que a resposta não se encontra no universo das coisas criadas, mas em Deus. Deus necessariamente existe e é a explicação do por que tudo o mais existe.

O argumento de Leibniz

Podemos reduzir o pensamento de Leibniz à forma de um simples argumento. Isso traz a vantagem de deixar a sua lógica bem clara e voltar nossa atenção para os passos cruciais de seu raciocínio. Também deixa seu argumento bem fácil de memorizar para que depois possamos compartilhá-lo com outras pessoas (você também encontrará um esboço do argumento no final deste capítulo). O raciocínio de Leibniz possui três premissas:

1. Tudo que existe tem uma explicação para existir.

2. Se o universo tem uma explicação para existir essa explicação é Deus.

3. O universo existe.

Ora, o que se segue logicamente dessas três premissas? Bem, vejamos a primeira e a terceira premissa. Se tudo que existe tem uma explicação para existir e o universo existe, então, logicamente segue-se que:

4. O universo tem uma explicação para existir.

Observe agora que a segunda premissa diz que se o universo tem uma explicação para existir essa explicação é Deus. E a quarta premissa diz que universo de fato tem uma explicação para existir. Então, da segunda e quarta premissas segue-se logicamente que:

5. Portanto, a explicação da existência do universo é Deus.

Ora, esse é um argumento logicamente incontestável. Equivale a dizer que se as três premissas são verdadeiras, a conclusão é inevitável. Pouco importa se um ateu ou um agnóstico não goste dessa conclusão. Pouco importa se ele tiver outras objeções à existência de Deus. Contanto que ele admita as premissas, ele terá que aceitar a conclusão.

Assim, se ele quiser refutar a conclusão, terá que dizer que uma das três premissas é falsa. Mas qual delas ele refutará? A terceira premissa é inegável para qualquer um que esteja sinceramente em busca da verdade. É obvio que o universo existe! Logo, o ateu terá que negar a primeira ou a segunda premissa, se pretende continuar sendo ateu e racional. Portanto, a questão toda se resume a isso: A primeira e a segunda premissa são verdadeiras ou falsas? Vamos analisar cada uma delas:

Primeira Premissa



Tudo que existe tem uma explicação para existir.


Uma objeção à primeira premissa: “Deus deve ter uma explicação para sua existência”.

Em princípio, a primeira premissa pode parecer vulnerável de um modo bem evidente. Se tudo que existe tem uma explicação para existir, e Deus existe, logo Deus deve ter uma explicação para sua existência! Mas isso parece estar fora de questão, pois a explicação para a existência de Deus exigiria a explicação da existência de outro ser maior do que Deus. Uma vez que isso é impossível, a primeira premissa deve ser falsa. Algumas coisas devem ser capazes de existir sem que haja qualquer explicação para isso. Um cristão diria que Deus existe de forma inexplicável. O ateu diria: “Por que não parar no universo? O universo simplesmente existe, de forma inexplicável”. Com isso, parece que chegamos a um beco sem saída.

Resposta à objeção anterior: “Certas coisas existem necessariamente”

Vamos mais devagar! Essa evidente objeção à primeira premissa se baseia em uma compreensão equivocada do que Leibniz quis dizer por “explicação”. Na visão dele existem duas classes de coisas: (A) as que existem necessariamente e (B) as que são geradas por alguma causa externa. Vamos explicá-las:

(A) As coisas que existem necessariamente existem por uma imposição ou necessidade de sua própria natureza. Para elas é impossível não existir. Muitos matemáticos acreditam que os números, os conjuntos e outros entes da matemática pertencem a essa classe de coisas. Eles não são causados por outra coisa; apenas existem pela necessidade de sua própria natureza.

(B) Por contraste, as coisas que tem sua existência causada por outra não existem necessariamente. Elas existem porque algo além delas as gerou. Objetos tísicos conhecidos, como as pessoas, os planetas e as galáxias pertencem a essa categoria de coisas.

Portanto, quando Leibniz diz que tudo que existe tem uma explicação para existir, essa explicação pode se encontrar ou em uma necessidade da natureza da própria coisa ou em alguma causa externa. Assim, a primeira premissa poderia ser expressa de forma mais completa da seguinte maneira:

Tudo que existe tem uma explicação para existir, seja essa explicação uma necessidade da própria natureza da coisa ou uma causa externa.

Mas com isso a objeção acima cai por terra. A explicação para a existência de Deus se encontra na necessidade da própria natureza de Deus. Como até um ateu reconhece, é impossível que Deus tenha uma causa. Logo, o argumento de Leibniz é na verdade um argumento em favor de Deus como um ser necessário, não causado. Longe de diminuir o argumento de Leibniz, a objeção ateísta à primeira premissa na verdade ajuda a esclarecer e engrandecer quem Deus é! Se Deus existe, ele é um ser que necessariamente existe, que não é causado.

Defesa da primeira premissa: “Tamanho não importa”

Então, que razão podemos oferecer para alguém pensar que a primeira premissa é verdadeira? Bem, quando você começa a refletir sobre essa premissa, percebe que ela é uma espécie de premissa evidente em si mesma. Suponha que você esteja atravessando uma floresta e se depare com uma bola translúcida bem no meio da floresta. Sua reação natural seria se perguntar como aquilo foi parar ali. Se alguém que estivesse com você dissesse: “Ora, isso apenas existe, não tem uma explicação. Não se preocupe com isso!”, você pensaria uma dessas duas coisas: que essa pessoa estava maluca ou que só estava querendo seguir em frente. Ninguém levaria a sério a sugestão de que aquela bola existia e estava la sem nenhuma explicação, literalmente.

Suponha agora que você aumente o tamanho dessa bola e ela passe a ser do tamanho de um carro. Isso não mudaria em nada a exigência de uma explicação para ela. Suponha que ela seja do tamanho de uma casa. Continua havendo a mesma necessidade de explicação. Ou que ela seja do tamanho de um continente ou de um planeta. A mesma coisa. Suponha que ela seja do tamanho do universo inteiro. A necessidade de explicação continua. Meramente aumentar o tamanho da bola não afeta em nada a necessidade de uma explicação.

A falácia do táxi

As vezes os defensores do ateísmo dirão que a primeira premissa é verdadeira para tudo que esteja no universo, mas não acerca do universo em si. Tudo o que existe no universo tem uma explicação, mas o próprio universo não tem. Contudo, essa explicação comete algo que tem sido chamado de “falácia do táxi”. Como costumava dizer com sarcasmo Arthur Schopenhauer, filósofo ateu do século XIX, a primeira premissa não pode ser dispensada com um aceno de mão, como se dispensa um táxi depois que se chega ao destino desejado! Não se pode dizer que tudo tem uma explicação para existir e, de repente, tirar o universo fora disso. Seria uma atitude arbitrária da parte do ateu se ele alegasse que o universo é uma exceção à regra (lembre-se que o próprio Leibniz não fez de Deus uma exceção à regra da primeira premissa). A ilustração que demos acima com a bola na floresta mostrou que o simples fato de aumentar o tamanho do objeto a ser explicado, mesmo que ele chegue ao tamanho do universo inteiro, não anula a necessidade de haver alguma explicação para a sua existência. Observe ainda o quanto essa resposta do ateísmo não é científica. Pois a própria cosmologia (estudo do universo) atual se dedica à busca de uma explicação para a existência do universo. A atitude ateísta mutilaria a ciência.

Outra falácia ateísta: “E impossível que o universo tenha uma explicação”

Assim, alguns defensores do ateísmo tentaram arrumar uma justificativa para fazer do universo uma exceção à primeira premissa. Eles disseram que é impossível que o universo tenha uma explicação para sua existência. Por quê? Porque essa explicação teria que ser um estado de coisas anterior no qual o universo ainda não existia. Mas isso seria o nada, e o nada não pode ser a explicação de algo que existe. Assim, o universo deve somente existir, de forma inexplicável.

Essa linha de raciocínio é uma evidente falácia. Pois ela assume que o universo seja tudo o que existe, de modo que se o universo não existisse, haveria o nada. Em outras palavras, a objeção presume que o ateísmo seja verdade! Os ateístas, portanto, estão cometendo uma petição de princípio, argumentando em círculos. Leibniz concordaria com a colocação de que a explicação do universo deve estar em um estado de coisas anterior à existência do universo. Mas esse estado de coisas anterior é Deus e sua vontade, e não o nada. Parece-me, portanto, que a primeira premissa, em termos plausíveis, é mais verdadeira do que falsa, e isso é tudo que precisamos para um bom argumento.

 

Segunda Premissa



Se o universo tem uma explicação para existir essa explicação é Deus.


E quanto à segunda premissa, que afirma que se explicação para existir essa explicação é Deus? Em termos plausíveis, ela é mais verdadeira ou falsa? O que mais causa estranheza para os defensores do ateísmo a essa altura é que a segunda premissa é logicamente equivalente à típica resposta ateísta ao argumento de Leibniz. Dois enunciados são logicamente equivalentes se for impossível um deles ser verdadeiro e o outro falso. Ou ambos se sustentam ou ambos caem por terra. Então, o que um ateísta quase sempre diz em resposta ao argumento de Leibniz? Como acabamos de ver, ele tipicamente afirma o seguinte:

A. Se o ateísmo é verdadeiro, o universo não tem uma explicação
para existir.

Essa é precisamente a resposta dos ateístas à primeira premissa. Para eles o universo apenas existe de forma inexplicável. Mas isso equivale logicamente a dizer:

B. Se o universo tem uma explicação para existir, então o ateísmo não é verdadeiro.

Portanto, não se pode afirmar A e negar B Mas B é praticamente um sinônimo da segunda premissa! (Compare os dois enunciados). Assim, ao dizer em resposta à primeira premissa que, dado o ateísmo, o universo não tem explicação, os ateístas estão implicitamente admitindo a segunda premissa, ou seja, se o universo tem uma explicação para existir, então Deus existe.

Outro argumento em favor da segunda premissa: “A causa do universo: um objeto abstrato ou uma mente sem corpo físico?”

Além disso, a segunda premissa é muito plausível em seus próprios termos. Pense no que é o universo: toda realidade tempo-espaço. inclusive toda matéria e energia. Segue-se que se o universo tem uma causa de existência, essa causa deve ser um ser não físico, imaterial. que esteja além do tempo e do espaço. Incrível! Ora, existem somente duas coisas que se encaixam nessa descrição: um objeto abstrato, como um número, ou uma mente sem corpo físico. Porém, objetos abstratos não podem ser causa de nada.

Isso faz parte do que significa ser abstrato. O numero 7, por exemplo, não pode causar nenhum efeito. Logo, a causa da existência do universo deve ser uma mente transcendente, e é isso que os cristãos entendem por Deus.

Esperemos que esteja começando a captar a força do argumento de Leibniz. Se bem-sucedido, este argumento prova a existência de um Criador pessoal do universo, um Criador necessário, não causado, acima do tempo e do espaço e imaterial. Não estamos nos referindo a alguma entidade mal concebida, como um ser extraterrestre, mas um ser ultramundano e que possui as muitas propriedades tradicionais de Deus.

Alternativa ateísta: “O universo existe necessariamente!”

O que os ateístas podem fazer a esta altura? Eles têm a seu dispor uma alternativa mais radical. Podem voltar atras, retirar sua objeção à primeira premissa e dizer, em vez disso que, sim, o universo tem uma explicação para existir. Mas que essa explicação é a seguinte: O universo existe por uma necessidade de sua própria natureza. Para eles, o universo serviria como uma espécie de substituto de Deus que existe necessariamente.

Ora, esse seria um passo muito radical para eles, e de fato não lembramos de nenhum defensor do ateísmo que tenha adotado essa linha de raciocínio. A razão pela qual os ateístas não parecem ansiosos para abraçar essa alternativa é clara:

Quando olhamos para o universo, vemos que nenhuma das coisas que o compõem, sejam as estrelas, os planetas, as galáxias, a poeira cósmica, a radiação ou o que quer que seja parece existir necessariamente. Todas essas coisas poderiam deixar de existir; na realidade, em algum momento do passado, quando o universo era muito denso, nenhuma delas existia. Mas pode ser que alguém diga: E quanto à matéria da qual essas coisas são feitas? Talvez a matéria exista necessariamente, e todas essas coisas sejam apenas configurações diferentes de matéria. O problema com essa possibilidade é que, de acordo com o modelo padrão da física subatômica, a própria matéria é composta por minúsculas partículas fundamentais que não podem continuar a ser decompostas. O universo é apenas um conjunto dessas partí­culas arranjadas de diferentes maneiras. Mas agora surge a seguinte questão: Não poderia ter existido um conjunto diferente dessas partículas fundamentais em vez desse que temos? Cada uma dessas partículas existe necessariamente?

Observe bem o que os ateístas não podem dizer a respeito disso. Eles não podem dizer que as partículas subatômicas elementares são meras configurações da matéria e que poderiam ter sido diferentes do que são, mas que a matéria de que elas são compostas existe necessariamente. Eles não podem dizer isso, pois as partículas sub-atômicas elementares não são compostas de nada! Elas são apenas unidades básicas de matéria.

Assim, se uma partícula específica não existir, a matéria não existe. Parece evidente que um conjunto diferente de partículas elementares poderia ter existido em vez desse que existe. Mas se fosse esse o caso, então teria existido um universo diferente.

Para entender esse ponto, pense em sua escrivaninha. Poderia ela ter sido feito de gelo? Note bem que não estou perguntando se você poderia ter tido uma escrivaninha de gelo em lugar da sua escrivaninha de madeira, que fosse do mesmo formato e tamanho. Antes estou perguntando se a sua própria escrivaninha, essa que é feita de madeira, se essa mesma escrivaninha poderia ter sido feita de gelo. A resposta obviamente é não. Se fosse feita de gelo seria uma escrivaninha diferente e não a mesma que você tem.

Do mesmo modo, um universo composto de diferentes partículas subatômicas, ainda que elas fossem arranjadas de forma idêntica nesse universo, seria um universo diferente. Segue-se, portanto, que o universo não existe por uma necessidade de sua própria natureza.

Ora, alguém poderia fazer uma objeção, dizendo que o corpo humano continua idêntico com o passar do tempo, a despeito de haver uma troca completa do material de seus constituintes por novos constituintes. Afirma-se que a cada sete anos a matéria que compõe nosso corpo é quase que completamente reciclada. Ainda assim, meu corpo é idêntico ao corpo que eu tinha antes.

Por analogia, alguém poderia dizer que vários possíveis universos poderiam ser idênticos muito embora fossem compostos de diferentes conjuntos de partículas subatômicas. A falta de analogia crucial, entretanto, é que a diferença entre possíveis universos não é absolutamente alguma espécie de mudança, pois não existe um sujeito que subsista e que vá passando por mudanças intrínsecas de um estado para outro. Logo, universos feitos de partículas diferentes não são como as fases diferentes pelas quais passa o meu corpo. Antes, são como dois corpos que não possuem qualquer conexão um com o outro, absolutamente.

Ninguém pensa que cada partícula subatômica do universo exista por uma necessidade de sua própria natureza. Segue-se que o universo, composto de tais partículas, também não existe por uma necessidade de sua própria natureza. Note que o caso permanece o mesmo quer estejamos pensando no universo como sendo em si um objeto (assim como uma estátua de mármore não é idêntica a outra estátua feita de mármore diferente) ou pensando nele como sendo um conjunto ou grupo (assim como um bando de pássaros não é idêntico a outro bando composto de pássaros diferentes), ou mesmo como sendo absolutamente nada além das partículas em si.

Minha tese de que o universo não existe necessariamente fica ainda mais óbvia quando pensamos que parece ser inteiramente possível que os elementos fundamentais que constituem a natureza poderiam ter sido substâncias inteiramente diferentes as partículas subatômicas que hoje temos. Tal universo se caracterizaria por leis da natureza diferentes. Ainda que tomemos nossas leis da natureza como algo logicamente necessário, ainda assim é possível que existissem diferentes leis por causa das substancias dotadas de propriedades e capacidades diferentes das nossas partículas subatômicas poderiam ter existido. Nesse caso estaríamos claramente lidando com outro tipo inteiramente diferente de universo. Portanto, os defensores do ateísmo não foram tão ousados a ponto de negar a segunda premissa e dizer que o universo existe necessariamente. Como a primeira premissa, a segunda premissa também parece ser verdadeira em termos de plausibilidade.

Conclusão

Dada a verdade dessas três premissas, não há como escarparmos da seguinte conclusão lógica: Deus é a explicação da existência do universo. Além disso, o argumento implica que:

Deus é não causado, uma mente não encarnada em um corpo, que transcende o universo físico e até mesmo o tempo e o espaço, e que existe necessariamente.


Retirado e adaptado de: Em Guarda – William Lane Craig

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